por * Lira Dutra
Aí, aí que eu vou, leruá! Pegar peixinho, leruá! Essa canção está presente no imaginário popular de muito granjense. Para uns ouvi-la é poder transportar o corpo e a alma aos tempos de menino e ver novamente os rostos dos amigos na metamorfose provocada pelo tempo. Todos os granjenses conhecem, ou deviam conhecer, a brincadeira do Leruá. Mas de onde vem nosso Leruá?

Roda de Leruá na inauguraçaõ do Parque das Carnaubas, Granja/CE/arquivo
Leruá é uma dança masculino, onde os brincantes demostram suas habilidade com cacetes de jucá (caesalpinia ferrea) em uma roda ao ritmo das cantigas entoadas pelo mestre. Os brincantes voltam-se para a direita e para a esquerda batendo os cacetes no movimento de defesa e ataque, enquanto a roda se movimenta no ritmo da canção.
Em Granja a brincadeira, segundo entrevistas realizada com os dançarinos e populares, foi trazida da Serra da Meruoca pelo o mestre Noé de Sousa e seus irmãos, Teodoro e Calebe. Segundo o senhor Teodoro, quando meninos “formavam rodada de doze” e o “pau torava”, brincavam na casa de um tio, que no mês de junho, na noite de São João, dia 26, fazia um “panelão de batata” e chamava o Leruá, que durava “até umas horas”.
Ao chegar na cidade de Granja, vindo da serra da Meruoca, mestre Noé de Sousa começou a participar do bumba-meu-boi e ao termino da dança do boi a brincadeira continuava com o seu Leruá. A partir daí sempre que alguém chamava o boi queria também a dança do Leruá.
Segundo informação do portal eletrônico da prefeitura de Meruoca:
“O leruá na Meruoca é uma variação do maneiro-pau, do Ceará. Ele é um bailado de roda, em que os figurantes acentuam a nota dominante das canções entoadas e repetidas em coro em seus respectivos refrões com o entrechoque de pequenos cacetes de jucá… De provável origem indígena, o leruá, em seu processo de consolidação, assimilou a fusão cultural brasileira, podendo ainda ser relacionado ao maculelê (bailado guerreiro que era exibido na festa de Nossa Senhora da Conceição na Praça da Purificação, em Salvador, e hoje comum nas rodas de capoeira em todo o Brasil) e a outras danças, como o bate-pau (Vale do Rio das Graças) e o tum-dum-dum (dança popular em Bragança, Pará).” (publicado em http://www.meruoca.ce.gov.br/noticias/texto.php?Id=2004, acessado em 10/04/2011)
De acordo com o blogue RM no Foco (http://rmnofoco.blogspot.com), o Leruá “é tradição” no período da Sexta-Feira Santa no município de Coreaú. A informação é confirmada com uma postagem do dia 14/04/2009 no blogue Coreausiará (http://jt-aguiar.zip.net/arch2009-04-01_2009-04-15.html), onde mostra uma imagem da brincadeira seguida do texto: “O sr. Rogério Cristino me mandou uma série de fotos da brincadeira do leruá, em Coreaú. A festa é tradição da Semana Santa.”A referida postagem recebeu o seguinte comentário assinado por Davi Portela:
[Coreaú Ce Brasil]
Esta foto me reportou aos meus tempos de criança. Por muitas vezes assisti o grupo do velho Vicente Chico dançar o leruá. Naqueles momentos folclóricos, vi muitas vezes a presença do Rogério Cristino, Luiz do seu Iraldo, Jarbas do seu Chico Irineu e tantos outros coreauenses que residem em Fortaleza. São conterrâneos que residem foram de seu torrão natal, mas vem a Coreau asssitir e participar das coisas belas de nossa querida Palma. (Davi Portela)
Ao confrontarmos as informações do mestre Noé e seus irmãos com as contidas no site da prefeitura de Meruoca e as postagem dos blogue de Coreaú, percebemos nítidas semelhanças na musicalização e formação da roda. Porém a periodicidade difere de município para município. Em Coreaú, a roda de Leruá acontece junto com a malhação de Judas na Semana Santa. já em Meruoca acontece a qualquer época do ano, especialmente no mês de junho. Em Granja o “pau canta” a qualquer época, especialmente no mês de dezembro junto com a brincadeira do Boi.
Atualmente a situação da dança do Leruá no município de Granja não é diferente de outras manifestações populares como: bumba-meu-boi, camaleão, Marujada, Festa dos Cachorros e São Gonçalo. Essas manifestações culturais, que no passado atraia atenção do povo, hoje enfrentam o esquecimento dos velhos mestres pelos mais jovens e a indiferença das autoridades públicas. No caso do Leruá, o mestre Noé de Sousa, com 76 anos, tem dificuldades de dançar, mas ensinaria sua arte se houvesse algum apoio cultural no município. A cada dia se faz necessário que olhemos para os artistas, os brincantes com mais carinho, respeito, conhecendo a grande responsabilidade que esses homens e mulheres tiveram na construção da cultura do nosso município.
Baixar breve historico do leruá (0)
Fontes pesquisadas
http://www.meruoca.ce.gov.br/noticias/texto.php?Id=2004, acessado em 10/04/2011
http://jt-aguiar.zip.net/arch2009-04-01_2009-04-15.html, acessado em 29/04/2011
http://jt-aguiar.zip.net/arch2009-04-01_2009-04-15.html
*Licenciatura em História e Geografia, autor do livro de poesia Artesão de Si e presidente da Artgran (Associação dos Artistas Granjenses).
Contato: liradutra@gmail.com
blog: www.granjaceara.com.br
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